terça-feira, 26 de março de 2013

Conexões - III


Em Veneza existe uma região chamada Ghetto, era uma área onde, na Idade Média havia uma forjaria com esse nome e que depois foi sendo ocupada pela comunidade judaica. A partir daí esse nome passou a designar as regiões de judeus nas cidades europeias, depois passou a significar qualquer local de ajuntamento de minorias étnicas ou sociais. Atravessando o Campo di Ghetto Nuovo, vejo judeus ortodoxos com suas roupas tradicionais. Claro que muitas coisas passam em minha cabeça, mas a primeira é: será que Shylock, personagem de “O Mercador de Veneza” de Shakespeare viveu por ali? Andamos mais um pouco por uma Fondamenta, algumas pontes adiante, está o Campo dei Mori, com seus mouros de pedra do século XII representando comércio de seda. Mais uma vez Shakespeare me vem à lembrança com “Otelo, o mouro de Veneza”. No Grande Canal ainda existe o que seria a casa de Desdêmona e sua família, já que ela era filha de um dos Doges.
Minha imaginação não resiste a fazer algumas conexões. Alguns pesquisadores da vida do bardo inglês, dizem que ele viveu na Itália por pelo menos uns seis anos, por isso tem algumas peças que acontecem lá. Outros pesquisadores italianos dizem que ele, na verdade, seria italiano da Sicília, mais precisamente de Messina, cenário de “Muito Barulho para Nada”. Mas, a despeito da vontade dos italianos o mais provável e mais documentado é que Shakespeare tenha nascido e vivido mesmo na Inglaterra elisabetana, quando os ingleses se lançaram ao mar para fazer frente aos espanhóis e portugueses que, fugindo das bem protegidas rotas venezianas estavam chegando ao oriente contornando a África e criando um novo mercado. Neste período também viveu na Inglaterra Francis Drake, que alguns estudiosos afirmam que era filho bastardo da Rainha Elizabeth. Independente disso Drake era um corsário da coroa inglesa que vivia a saquear os navios que iam do Novo Mundo para a Europa, descobriu um caminho alternativo ao Estreito de Magalhães para contornar as Américas, chamado até hoje de Estreito de Drake, mas morreu de diarreia em frente ao que hoje é a Costa Rica. Diz a lenda que seu corpo colocado em uma armadura de ouro e lançado ao mar. Entre seus feitos nem tão heroicos assim está o saque à cidade espanhola de Cádiz, onde destruiu um parte considerável da frota espanhola, permitindo que um ano depois vencesse a “Invencível Armada Espanhola”. Essa cidade espanhola tem uma história riquíssima que vem desde os fenícios, cartagineses, romanos, visigodos, árabes e cristãos. Foi dela que o genovês Cristóvão Colombo partiu para descobrir o Novo Mundo.
Bom, Gênova era uma República e tinha a Sereníssima Republica de Veneza como sua principal inimiga. Seus conflitos comerciais foram resolvidos em diversas guerras. Genova tinha como parte de seu território a ilha da Córsega que foi perdida para a França em 1768. Por uma dessas ironias do destino, um ano depois, já sendo território francês, lá nasceu Napoleão Bonaparte que mais tarde acabaria com a independência genovesa, tendo sido ela francesa, depois parte do reino da Sardenha e finalmente italiana no final do século XIX quando da unificação da Itália. Bonaparte também conquistou Veneza, de onde levou os cavalos da fachada da Igreja de São Marcos para Paris, onde foram colocados no Arco do Carrousel que fica em frente ao Louvre, no Jardin des Tuileries e que celebra suas conquistas. Mais tarde foram devolvidos, quando da reunificação italiana. Mas esses cavalos já tinham sido objeto de saque, quando Veneza financiou a Quarta Cruzada e em troca do dinheiro pediu dois favorzinhos: conquistar a cidade de Zara, na Dalmácia que poderia vir a ser uma concorrente e saquear Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, com quem tinha algumas contas a acertar. Os cruzados da Quarta Cruzada nunca chegaram à Terra Santa... Os cavalos estavam em Constantinopla, para onde tinham sido levados por Constantino, tirados do Arco de Trajano em Roma, sendo que Trajano já os havia trazido da Grécia como saque, em uma de suas campanhas militares. 
Bom... Trajano foi o primeiro imperador que não nascera em Roma, mas na então província da Hispânia, no que é hoje a Andaluzia, na Espanha. Essa região espanhola mostra até hoje sua forte influência árabe, na arquitetura e na música e é de lá que vem o personagem Cardênio, louco de amor – abandonado pela mulher amada e traído pelo melhor amigo, encontrado por Dom Quixote de La Mancha, vagando pela Sierra Morena, no romance de Miguel de Cervantes. Este personagem influenciou uma das peças de Shakespeare com o mesmo nome, que ficou perdida por 300 anos e só foi encontrada agora em 2010. Impressionante é que Cervantes e Shakespeare morreram no mesmo dia: 22 de abril de 1616.
Deixamos os mouros do Campo dei Mori para trás e vamos pelo becos de Veneza até a praça de São Marcos... Afinal a história é comprida!

domingo, 24 de março de 2013

A Blogueira Cubana


Tivemos outro dia a visita da cubana Yoani Sanchez que tem um blog chamado “Generacion Y”, nunca estive nele, mais por falta de curiosidade mesmo. Não sou contra nem a favor dela, como não leio o blog não posso falar nada. Acredito que todos têm o direito de expressarem suas ideias sem censura, mesmo aquelas mais toscas. Acredito que o ser humano é livre e acho um absurdo os movimentos de censura que tem surgido no Brasil.

A saída da blogueira do Brasil não teve o mesmo impacto da sua chegada, não sei por quê. Como acompanho jornais de outros países, vi pequenas notas sobre sua estada na Republica Tcheca, no México, nos Estados Unidos, acho que na Espanha também, enfim... Ela está um périplo mundial. É seu direito falar mal do governo cubano assim como também condenar o selvagem bloqueio norte-americano à Cuba. Mas o que eu queria falar mesmo é sobre as “manifestações” contrárias à presença de Yoani no Brasil. Foram ridículas e anacrônicas. Tão ridículas e inoportunas que acabaram por dar à sua presença no Brasil um destaque que de outra maneira não teria. Desconfio que essas “manifestações espontâneas” tiveram algum tipo de incentivo da direita. Embora na esquerda existam babacas capazes de pensar em idiotices desse tipo, a direita é bem mais articulada, sei não, sei não...

A visita da blogueira ao Congresso Brasileiro foi desrespeitosa, não por ela que, quero acreditar, por iniciativa própria com certeza não agiria daquela forma. Basta ver sua visita à Nações Unidas e ao Congresso Americano. No Brasil os próprios congressistas, principalmente do PSDB e DEM fizeram um carnaval de constrangimento que seria repelido em qualquer democracia do mundo, mas que aqui mostra bem o que eles pensam das instituições. É impressionante!!

O que mais me impressiona é que a oposição  brasileira hoje não existe. Existem os que são do contra, que queriam estar no governo, mas estão fora e os que têm uma fobia patológica ao PT ou à esquerda, embora não saibam explicar bem por que. A oposição é fundamental para a democracia e esses caras, literalmente c... e andam para isso, querem o poder e pronto. Qualquer oportunidade de avacalhar é aproveitada ao máximo.  E pensar que há um ano o ídolo desse povo era o Demóstenes...fala sério!

Profissões "Novas"


Vi nos noticiário da TV em um fim de semana desses a demissão de ministros e sua substituição por outros. O motivo da substituição é o mesmo da sua demissão e foi o mesmo da sua nomeação. Ninguém está sendo nomeado por seu conhecimento na área ou seja, não irão acrescentar nada, se não piorarem estarão dando fazendo o melhor. Bom... mas no meio disso vi lá, meio desconsolado o agora ex-ministro Brizola Neto, que embora sendo neto do velho caudilho Leonel de Moura Brizola, pouco tem a ver com ele e perdeu a parada para um profissional da cafajestagem que é o ex-ministro Carlos Lupi.
No seu curto período de ministro o Brizola Neto atualizou o Código Brasileiro de Ocupações incluindo profissões como DJs, musicoterapeutas, equoterapeutas, sommelier, barista, ombudsman, agente de inteligência entre uma série de especialidades da farmácia, turismo, terapias, etc. Se quiser ver a lista acesse o site do Ministério do Trabalho em http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/downloads.jsf
Pelo menos isso o ministro levará de sua curta permanência, quase uma interinidade e poderá recordá-la mais tarde nas rodas de conversa da família, como o Pádua,  pai de Capitu faz em  Dom Casmurro. Mas eu queria contribuir com essa lista, fazendo algumas sugestões, vamos lá:
Flanelinha: essa profissão consiste em extorquir dinheiro de pessoas que usam o espaço público destinado ao estacionamento de carros para... estacionarem  seus carros! O dinheiro cobrado destina-se a proteger o extorquido da ação do próprio “profissional”.
Miss Bumbum: essa profissão consiste em explorar determinado atributo físico, natural ou não. Não exige nenhum tipo de conhecimento  ou formação especial e garante  à “profissional” o direito não se sentir ofendida quando for chamada de “cara de bunda”. Tem também a vice-miss bumbum, uma espécie de variação alotrópica do original.
Mulher fruta: essa profissão consiste em associar determinada fruta com algum atributo físico da “profissional”. Exige profundos conhecimentos de fruticultura e biologia e é uma área em ascensão considerando as diversas oportunidades que existem como abacaxi, jaca, jenipapo, mutamba, maracujá, entre outras só pra ficar nas frutas tropicais.
Cantor sertanejo universitário: essa profissão consiste em ser capaz de compor (!??) músicas (???) com refrões fáceis e pegajosos. Exige elevado conhecimento de mecânica automobilística e disposição para usar roupas justas e desempenhar algumas coreografias bem complexas.
Madrinha de bateria: essa profissão consiste em desempenhar uma atividade uma vez por ano, exige os atributos de mulher-fruta e miss bumbum acompanhados de elevado QI que pode ser substituído por um “patrocinador”. Requer também elevado conhecimento de cultura popular, musculação e relações com a “comunidade”.  É uma evolução da antiga profissão “destaque de escola de samba”.
Agitador cultural: profissão com vasta área de aplicação e que exige um conhecimento profundo das demandas baladeiras. No entanto para seu desempenho são necessários alguns quesitos obrigatórios: calça folgada na bunda, cueca aparecendo, camisa xadrez, óculos de aros grossos e cabelo ensebado.
Colunista da Veja: profissão que exige  elevado grau de babaquice e articulações estranhas com o submundo do jogo do bicho. Tem baixa remuneração e pouca oferta de vagas devido à complexidade das exigências.
Blogueira cubana: profissão nova, mas com muitas possibilidades de financiamento.
Manifestante contra blogueira cubana: profissão recente, atividade simples que exige deslocamentos aos aeroportos e locais públicos, disposição para gritar palavras de ordem saídas dos anos sessenta. Não é necessária nenhuma profissão ou formação anterior apenas foco na atuação frente às câmeras  para garantir o sucesso da blogueira cubana.
Ex-BBB: profissão em ascensão, com muitas possibilidades de desdobramento. Para os homens exige-se disposição para andar de sunga todo o tempo, para as mulheres disposição para posar nua. Além disso pede-se baixa ou nula qualificação intelectual, não havendo necessidade de ser alfabetizado sendo dispensável a capacidade de articular duas ou mais palavras com algum sentido.
Tem mais um monte. Mas depois faço outra lista. Fique a vontade para contribuir!

sábado, 2 de março de 2013

As crônicas do perna de pau absoluto – o futebol explica o mundo


Gente, não entendo nada de futebol, como praticante, é claro! Não consigo fazer mais de duas embaixadas seguidas, nunca fiz um gol e na verdade nem gosto muito de assistir a jogos. Mas o mundo futebol me chama atenção desde menino , quando lia  “À sombra das chuteiras imortais” de Nelson Rodrigues, no jornal “O Globo” que meu pai trazia todos os dias. Passei por algumas leituras da revista “Placar” que depois abandonei. Hoje leio o que me cai na mão, mas destaco alguns colunistas que são fundamentais. Sem nenhuma ordem de preferencia indico PVC, Paulo Vinícius Coelho, ele tem um blog http://espn.estadao.com.br/blogs/pauloviniciuscoelho#1; o eterno craque Tostão, tem sua coluna na Folha de São de Paulo, craque na bola e nas palavras é uma das vozes mais lúcidas do futebol brasileiro; também vale a pena ler Renato Maurício Prado em seu blog http://oglobo.globo.com/esportes/rmp/; tem também o programa “Loucos por futebol” da ESPN, com Marcelo Duarte, PVC e Celso Unzelte, esses caras são aqueles que conseguem escalar o time do Racing que perdeu para o Santos em 1961 e ainda descrever os gols feitos! Tem também o mala do Milton Neves e muitos outros.
Claro que o futebol explica o mundo, vamos lá. Vejo esses campeonatos estaduais, são de uma pobreza impressionante. Há um desequilíbrio flagrante entre os times. Nos estados que têm mais de uma equipe na 1ª divisão nacional então, isso fica flagrante. Alguns times preferem escalar reservas, os estádios no interior são caóticos, desorganizados e muitas vezes perigosos. Mas acaba mostrando o lado operário do futebol, nas equipes pequenas, onde os atletas têm contrato apenas por seis meses e depois ficam o resto do ano parados. Vejam o caso do atleta Ditinho, que jogou pelo URT de Patos de Minas, na 2ª divisão estadual ano passado (não entendo a frescuragem de chamar isso de módulo II...). Ele já tem 40 anos, fez carreira como atleta operário em times do interior de Minas e de São Paulo. Ano passado durante um jogo com o Araxá, caiu em campo sentindo fortes dores abdominais, socorrido foi levado para um hospital particular onde foi diagnosticado um infarto devido a graves problemas renais. Bom o que sucedeu depois é um filme de terror. Ele foi abandonado pelo time, que disse que não tinha como bancar seu tratamento e que ele tinha de procurar o SUS. Nenhum problema quanto ao tratamento público, a maioria absoluta dos trabalhadores brasileiro recorre a ele. Ditinho passou por uma grave cirurgia renal, UTI e se recuperou, não mais para o futebol. Foi candidato a vereador em Patos de Minas e foi eleito... A maioria dos ex-atletas, principalmente os operários, não têm esse mesmo destino.
Bom e a morte do menino Kevin, na Bolívia? Podia ter acontecido em qualquer lugar. Aqui no Brasil, é claro, não teria havido grandes repercussões e digo por que. Todos se lembram do massacre filmado de um membro da Máfia Azul (Cruzeirense) por membros da Galoucura em frente ao Pátio Savassi em BH. Identificados os agressores, estes compareceram na Justiça (?) entrando no fórum como se fosse uma guarda pretoriana tamanha a arrogância. Alguns dias depois participavam de reuniões com o Ministério Público e o comando da PM para discutirem questão se segurança (?!) nos jogos em Belo Horizonte, só agora estão presos, mas com certeza serão soltos logo, logo. Alguém duvida que com os Gaviões da Fiel seria diferente? E essa farsa de um “dimenor” se apresentar como responsável? É a primeira que se vê um advogado se empenhar para provar a culpa de seu cliente. As torcidas organizadas são uma espécie de milícia usada por dirigentes dos clubes. Servem para intimidar, assediar, derrubam técnicos que estejam dando atenção para atletas “propriedade” de algum dirigente, intimidam jogadores e torcedores, operam a máfia dos cambistas e por aí vai. Uma torcida organizada dessas de Belo Horizonte é comandada por um ex-deputado federal que a alugava durante as campanhas eleitorais para destruir propaganda, tumultuar comícios dos adversários, criar confusão nos debates. Esse julgamento tem de ser exemplar, a pobre Bolívia vai fazer o que o rico Brasil não tem coragem de fazer.
E a mudança de regras no campeonato nacional? Agora não haverá mais os clássicos regionais nas ultimas rodadas. Isso impedia a entregação e manipulação de resultados que fizeram muitos times campeões. Mas não é isso que os dirigentes querem, eles querem é armação mesmo! E por falar nisso...Todo mundo sabe que no mundo do futebol brasileiro corre muuuuuuita grana que vem de publicidade, venda de produtos dos clubes, ingressos e direitos de transmissão para rádio e TV. Isso dá tanto dinheiro que o ex-presidente da CBF mora hoje em uma mansão de 15 milhões de dólares em Miami, com direito a iate e etc. Ele é genro do Havelange, sua filha dirige o comitê da Copa, futebol é o negócio da família... Agora vem o Ministro Aldo Rebelo querer que os clubes sejam isentos de impostos e previdência. A maioria dos clubes brasileiros apesar de lidarem com um negócio altamente lucrativo está afundada em dividas de impostos. Para qualquer um de nós ficarmos devendo uma moedinha qualquer ao imposto de renda é uma hipótese remotamente improvável, para esses bacanas o tratamento é outro!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Conexões II


Na civilizada cidade de Bruxelas, na Bélgica, além de um monumento ao átomo de Ferro, lembrança de uma Feira Mundial lá dos anos 50, chamado Atomium, existe, a poucos quilômetros do centro, o Museu Real da África Central (Musee Royal de l'Afrique Central) que procura mostrar que os civilizados belgas têm alguma consideração pela África.
Os belgas patrocinaram um dos regimes coloniais mais violentos que se teve história. O que é hoje a República Democrática do Congo (também já foi Zaire), foi o Estado Livre do Congo, uma fazenda do rei belga Leopoldo II. Era um negócio particular do monarca, onde não havia nenhuma lei. Milhões de africanos foram mortos de fome ou de exaustão ou ainda abatidos a tiros em caçadas.  O domínio belga perdurou até 1960, quando se tornou independente. Em sua primeira eleição, elegeu Patrice Lumumba que um dos principais líderes do movimento anti-colonialista. Dois meses após a eleição, Lumumba foi seqüestrado e assassinado por forças especiais belgas, o país ficou em convulsão até 1965, quando o governo foi tomado por Mobutu Sese Seko que, de forma ditatorial e violenta dilapidou o Congo (foi ele que inventou o nome Zaire) por mais de 30 anos, somente de 2006 para cá o país vem conhecendo alguma tranqüilidade.
No início do século XX, o grande escritor inglês (nascido na Polônia) Joseph Conrad escreveu um livro chamado “O Coração das Trevas” onde ele conta a história do marinheiro Marlow que sobe um grande rio da África (ele não diz mas dá toda as dicas que se trata do rio Congo) para resgatar um comerciante chamado Kurtz, que havia enlouquecido e não estava respeitando as normas comerciais. Conrad descreve parte da violência doentia que reinava naquele pedaço do mundo. Bem mais tarde Francis Ford Coppola, faz o fantástico “Apocalypse Now” baseado neste livro. Só que agora o absurdo é a Guerra do Vietnam e o Capitão Marlow recebe a missão de matar o Coronel Kurtz, um condecorado militar das forças especiais americanas que havia se estabelecido no alto rio Mekong e lá criado um território sob sua própria lei. Assistir este filme é tarefa obrigatória de quem quer entender nosso mundo hoje. Mas queria apenas me fixar em uma passagem do filme. Trata-se de um ataque de helicópteros a uma aldeia vietcong, com muita bomba e napalm ( um gel de gasolina e outros inflamáveis que aderia ao que tocasse e aí pegava fogo...). Este ataque é feito ao som de Wilhelm Richard Wagner, A Cavalgada das Valquírias (Die Walküre), veja a cena em  http://www.youtube.com/watch?v=sx7XNb3Q9Ek&feature=related.
Wagner era o compositor preferido de Hitler pela “germanicidade” de sua obra e não porque ele tenha tido alguma coisa com o nazismo. Influenciou Nietzsche, que tinha uma paixão platônica por sua mulher Cosima que era filha de Franz Liszt que entre tantas obras primas teve tempo para ser amigo de Frederic Chopin. Bom o que nos interessa aqui é Chopin autor de Noturnos, Polonaises e Sonatas, entre elas a Sonata nº 2, cujo terceiro movimento é conhecido com Marche Funèbre. Este movimento foi composto antes que fizesse a sonata, e sua solenidade é reconhecida nos seus primeiros acordes, vale a pena ouvir a pianista russa Valentina Igoshina em http://www.youtube.com/watch?v=xPqMd06warU&playnext=1&list=PL721CFC68F34E1061
Vale a pena também ouvir o pianista brasileiro Nelson Freire que gravou todas as composições de Chopin, sendo um de seus interpretes mais conhecidos atualmente.
Bom, apesar de ter vivido sua fase mais produtiva no exílio em Paris, há algumas versões que a Marcha Fúnebre foi composta em seu pais natal, para onde pediu que após a morte fosse levado seu coração ( o corpo está no cemitério Pére Lachese em Paris). Na sua época a Polônia havia sido dividida entre o Império Austríaco, o Reino da Prússia (atual Alemanha) e o Império Russo. A cidade natal de Chopin foi ocupada pelos russos. A Polônia somente voltaria a ser um país em 1918, era a Marcha Fúnebre de seu próprio país...
Quase cem depois de Chopin, a Polônia foi o estopim da Segunda Guerra Mundial quando os nazistas ocuparam o que era a Prússia Oriental após um tratado secreto feito com Stalin para repartir de novo aquele país. Mais de 23mil oficiais do exército polonês que tentaram o apoio dos comunistas para resistirem aos nazistas foram aprisionados por aqueles e executados na floresta de Katyn. Este crime ficou oculto por muitos anos somente tendo sido assumido pelos russos recentemente no governo do sinistro Vladimir Putin. No entanto, em 2010 quando o presidente polonês se dirigia ao povoado de Katyn, que fica na fronteira com a Rússia, para participar de uma cerimônia de celebração do 70º aniversário do massacre, seu avião caiu em território russo matando os quase 100 ocupantes.
Na civilizada Varsóvia, em uma de suas igrejas está enterrado o coração de Frederic Chopin. Esta igreja não foi destruída pelos nazistas pela intervenção de um general alemão, em um acesso de civilidade. O monumento a Chopin foi reconstruído, assim como o de outro polonês muito conhecido que foi Nicolau Copérnico. No final dos anos 80 foi construído um memorial para os soldados massacrados pelos russos. É assim... todo mundo, de uma forma ou de outra celebra suas dores e vergonhas.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Desde que o samba é samba, é assim...


A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba, é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite a chuva que cai lá fora.”
Esses versos de Caetano Veloso, para mim são umas das mais preciosas versões do que é samba. Outra versão é aquela do Vinicius de Moraes:
Pois o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre a esperança
De um dia não ser mais triste não...”
A definição do samba vai por aí, pela tristeza. Lembra aquela clássica definição do Blues : “um homem bom chorando por uma mulher...” Escute “Love in vain” de Robert Johnson cantada pelos Stones e entenda isso (deixo que você mesmo procure no Google, este post é sobre samba...)
Então... Não há época melhor para falar sobre samba do que o Carnaval que aqui no Brasil é marcado pelo samba. Mas como assim?  O samba é tristeza e o carnaval é tudo, menos triste (pra quem gosta , é claro!). Bom, uma coisa nada tem a ver com outra. Tem carnaval em Veneza, tem o Mardi Gras em New Orleans, tem na Alemanha, e lá não tem samba. Aqui é que nós misturamos as coisas. Mas não vou falar da origem do Carnaval, quero falar de samba.
Claro que sua origem está na África e suas manifestações estão em todo o Brasil. O batuque dos antigos escravos com certeza representava uma espécie de ponte com sua origem do outro lado do oceano. Existem muitas manifestações, mas o que hoje conhecemos como samba é uma musica urbana, nascida nos morros cariocas com forte influência do samba de roda baiano (por isso as escolas de samba ainda mantêm suas alas de baianas).
O samba de roda é aquele samba que pode ser marcado com palmas e se caracterizava por improvisação nas rodas. Os exemplos mais próximos que conhecemos são aquelas canções das rodas de capoeira, com palmas, atabaque, ganzá, caxixi e berimbau, ouçam: http://www.youtube.com/watch?v=j2Aqzmk5GGE
A ida do samba de roda para o Rio de Janeiro acabou permitindo a inserção de novos elementos e harmonizações. Nasceu ai o samba sincopado , com introdução de instrumentos de corda e a marcação feita por palmas  feita pelo surdo. O “inventor” dessa nova batida foi um mineiro de Juiz de Fora, Geraldo Pereira, que se mudara para o Rio de Janeiro nos anos 30 indo morar no morro da Mangueira. Ele fez essa transição marcando o seu samba com o violão e serviu de matriz para o samba canção onde foram beber Cartola, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros tantos e também  a bossa nova, apesar de estar mais próxima do jazz que do samba. Vejam Roberta Sá cantando Falsa Baiana de Geraldo Pereira: http://www.youtube.com/watch?v=V4-jESpQS78

Outra vertente é o chamado samba de raiz ou partido alto, marcado pelos instrumentos de corda, surdo, pandeiros e em algumas vezes por palmas. Atualmente Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e outros o representam bem deem uma olhada em: http://www.youtube.com/watch?v=dvhPcx8P8a0
 Surgiram muitas outras derivações como o samba de breque, o samba exaltação, o pagode, o samba-rock, o samba canção e o samba-enredo que, na verdade, é o objeto deste post desde o início. O samba-enredo é um samba feito para uma escola de samba desfilar no carnaval. Passou ser empregado obrigatoriamente só no final dos anos 40, até então eram utilizadas algumas improvisações. Já nos anos 60 o samba-enredo passou a ser um quesitos para escolha da melhor escola e a partir dos anos 80 a necessidade de marcar o desempenho do desfile, acabou dando ao samba-enredo uma cadencia estranha, de marcha batida, cheio de ôôôô, paradinhas e gritos de guerra. São todos absolutamente iguais. Não conseguimos mais reter as canções e as letras são cada dia mais doidas, lembrando o grande samba de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: “O samba do crioulo doido”. Mas neste universo de mesmice, onde não conseguimos mais distinguir uma escola da outra e um ano do outro, algumas coisas persistem como o belíssimo Onde o Brasil aprendeu a liberdade samba ainda sem a marcha batida dos de hoje, da Vila Isabel de 1972, composto pelo engajado Martinho da Vila: http://www.youtube.com/watch?v=pp7OGx2ktfs
Em 1982 acho que o último samba-enredo ainda merecedor de ser chamado de samba apareceu na Sapucaí que foi “É hoje” de Didi e Mestrinho, da União da Ilha do Governador, vejam essa versão do Monobloco, com Pedro Luís e a Parede – muito bom!! (Procure por ele no Youtube) e Serjão Loroza: http://www.youtube.com/watch?v=JCJ1vAA3MqU
Também em 1982, o Império Serrano contou a história do próprio samba com “Bumbum paticumbum prugurundum” de Beto sem Braço e Aluísio Machado, um sambão, mas já anunciava o fim do samba-exaltação e o advento do samba-marcha-cronometrada-batida, mas isso não o desmerece, mas depois dele tudo ficou muito igual, confiram com Arlindo Cruz: http://www.youtube.com/watch?v=zlOumNddMqc
E olha que nem falei de São Paulo, túmulo do samba!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Falando de poesia


A poesia tem ficado um pouco ausente de nossas vidas. Quando era menino, na escola ler poesia era obrigação, quem não leu “ As pombas” de Raimundo Correia e não ficou embatucado com a “raia sanguínea e fresca a madrugada”? E o Navio Negreiro de Castro Alves? Tinha um colega que conseguia declamar tudo, ainda lembro o final com um dramático “Colombo! Fecha a porta de teus mares”, já dito com a voz embargada.
Essa lembranças me ocorreram em um dia em frente a TV assisti, (naquele breve intervalo  de tempo que minha compulsão de mudar de canal me deixa ver alguma coisa) duas coisas interessantes. Na primeira uma entrevista com Patti Smith, uma poeta do rock que agora lançou sua biografia: Só Garotos, (Companhia das Letras). Ainda não li, mas a entrevista e as resenhas me obrigam a fazê-lo imediatamente. Na segunda, em um dos intervalos da entrevista aparece uma propaganda da Net TV onde um cara toca um violão e canta no estilo Lou Reed.
Bom, Patti Smith é uma espécie de transição do beat para o punk. Levou a poesia para o cenário do rock: “desire is hunger is the fire I breathe. Love is a banquet on wich we feed...”. Tô doido... Estes versos são trecho da letra  da clássica “Because the Night”, composta com  Bruce Springsteen. Existem diversas versões na internet,  mas essa de 1979, ainda com o Patti Smith Group, me pareceu a melhor. Dêem uma olhada: http://www.youtube.com/watch?v=0brHGJ6xqbk&feature=related.
Na entrevista Patti conta sobre a influência que teve dos poetas Allen Gisnberg e Willian Blake. O primeiro era americano, teve participação intensa no cenário dos anos 60 e na formação da cena hippie, foi amigo de Jack Kerouac , devotado seguidor de sexo, drogas e poesia, não necessariamente nesta ordem... O lance com as drogas o fez aproximar-se de Timothy Leary criador do movimento LSD  (League of Spiritual Discovery) que defendia o uso do ácido lisérgico (que acabou tendo como sigla o nome do movimento...) como “ferramenta” de libertação da mente, enfim... doideira pouca é bobagem. Já Willian Blake era inglês e viveu entre os séculos XVIII e XIX. Era poeta e pintor . Suas obras carregadas de sentidos obscuros e místicos inspiraram por muitos anos os esotéricos e eram figurinhas carimbadas na Revista Planeta. Aí temos uma mistura legal que é a cara dos anos 60: liberdade, sexo, drogas (muitas drogas...) poesia, música, esoterismo, misticismo. No livro, o painel deste anos 60/70 são o pano de fundo para a formação de Patti, narrada através de sua história e vida com o fotógrafo Robert Mapplethorpe.
Bom, Patti Smith vive e viveu a maior parte de sua vida em New York, cenário por onde trança e também vive Lou Reed. Ele levou temas mais adultos para o rock dos anos 60 que ainda estava na sua adolescência, também levou mais cultura e uma postura, digamos assim, alternativa. Suas músicas são para ambientes pequenos, com barulho de copos, conversas e muita fumaça de cigarro. Ouça  a barra pesada “Walk on the wild side”, no link: http://www.youtube.com/watch?v=qkwD261MHsc&feature=related., atenção para as “colored girls”…
Não é só New York que une os dois, mas sim uma atitude rock’nroll, visões ácidas e ao mesmo tempo românticas de uma realidade crua. Vejam este trecho do filme “Faraway, so close” de Wim Wenders, onde o anjo Cassiel depois de virar humano em Berlim, vai a um show de Lou Reed, que toca “Why can’t I be good”. Está em : http://www.youtube.com/watch?v=2S3U_lHWR9M. Vale a nota que o filme é de 1993, pós queda do Muro,  tem uma trilha sonora interessante e a bela presença de Natassia Kinski como a “anja” Raphaela. Em 1998 houve uma versão americana deste filme, chamada “City of Angels” que fica muito longe do original, tudo bem  que o filme tem na sua trilha sonora “Uninvited” da Alanis Morissette, com aquele arranjo de orquestra e tudo mais, e o fantástico blues “Red House” de Jimi Hendrix, mas não vale a pena assistir só por isso.
Fico tentando achar a conexão que me fez, vendo Patti Smith, lembrar Raimundo Correia e Castro Alves. Não saberia dizer, o poeta das pombas flertou com o simbolismo, não sei... já o poeta dos escravos era da escola romântica...sei lá... Acho que não ajudou nada, vou mudar de canal!